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O LIRISMO DE BERREDO DE MENEZES

                                                                                                                                   Marilena Soneghet, Berredo de Menezes e Jô Drumond

O grande poeta, Ferdinand Berredo de Menezes, nascido em Coroatá (MA), mesmo como prosador, nunca perdeu seu acentuado lirismo. Enveredou por um gênero híbrido de prosa poética que ele denominava “cônticos” ou “prosopoemas”. Não ousaria rotulá-lo nem encaixá-lo em nenhuma corrente estética, pois em consonância com l’air du temps ou zeitgeist, ele “bebeu água de várias fontes”, assim como seus contemporâneos pós-modernos. Sua prosa prima  pelo alto grau de literariedade, com traços neomaneiristas, neobarrocos, neoimpressionistas, neossimbolistas e, às vezes, neossurrealistas.

Suas imagens literárias são muitas vezes criadas para ser sentidas, para provocar uma experiência estética (esthésis), não para ser entendidas. Essa característica era tão marcante, que ele mesmo pedia que não lhe perguntassem o sentido daquilo que havia escrito, pois não saberia explicar. Tentava expressar da melhor maneira possível o que sentia num determinado instante. Passado o enlevo quase epifânico, não conseguiria descrever novamente a sensação daquele momento. Era exatamente isso que os pintores impressionistas faziam. Retratavam o instante. Monet, por exemplo, fez  cerca de 30 telas da Catedral de Rouen explorando a luminosidade instantânea em diferentes momentos do dia, nas quatro estações do ano.

A cada leitura, seus escritos dão margem a novas experiências estéticas e a novas possibilidades interpretativas. Cada incursão pelo texto berrediano é uma viagem singular, que varia segundo a bagagem e o contexto cultural de cada viajor. Seu requinte literário pode ser percebido nos títulos de seus títulos dos livros:

PROSA POÉTICA: Catedral dos vácuos (1955); O inventor de Assombros (2001); O velejador de abismos

(2003); Pelo chão dos sonhos (2005); O dialeto das sombras (2007); Sob a luz dos sonhos (2011).

POEMAS: A surdez dos clarões (1993); Clarividências do nunca (1993); Vozes do meu silêncio (1996); Sobras do absoluto (1997); O Vento do Bambuzal (1997); Ladainha do exílio (1997); Além do sonho (1997); O sol das águas (1998); Entre o sonho e o delírio (1998); Flauta do azul (1999); Ente o sonho e o delírio (2000); A flauta sonhâmbula (2007); Sobras do absoluto (2007); Usina de silêncios (2008); Pelos olhos da infância (2008);

Berredo de Menezes, ex-ocupante da cadeira n°1, da Academia Espírito-santense de Letras, além de literato, atuou na área jurídica, na política e no magistério. Dedicou-se voluntariamente ao direito trabalhista, tendo inclusive recebido honrarias da Federação dos Trabalhadores na Indústria do ES, pelo fato de jamais haver cobrado honorários nas causas trabalhistas em que atuou. Exerceu posteriormente a advocacia criminal, tendo sido considerado, na época, o maior criminalista do Estado. Foi professor universitário durante 32 anos, ocupando a cátedra de Direito Constitucional e, posteriormente, a de Direito Processual Penal, na Ufes. Foi Prefeito de Vitória entre 1982 e 1985. Eleito por duas vezes vereador, cumpriu os mandatos no município de Vitória.

Leitor contumaz desde jovem, o que Berredo mais lamentava na velhice, após ter tido dois AVCs, era a impossibilidade de ler um livro, assim como de ouvir a leitura feita por outrem. Esses dois incidentes reduziram-lhe a memória, a audição e a visão. Teve que parar de escrever contos. Só conseguia alinhavar o que denominava “poemetos”, compostos de 10 tercetos, todos em decassílabos, geralmente sem rimas, que constituem seus últimos livros ainda inéditos.

Jô Drumond

Ocupante da cadeira nº 10 da Afesl Ocupante da cadeira nº 32 da AEL Ocupante da cadeira nº 24 da Afemil

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